Ricardo Fonseca: "A literatura deve favorecer a liberdade e perseguir o silêncio e a intimidade (não a vida privada)"

15/06/2020

Ricardo Fonseca Mota nasceu em Sintra em 1987, cresceu em Tábua e acabou de crescer em Coimbra. O seu primeiro romance Fredo venceu o Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís em 2015, foi semifinalista do Oceanos – Prémio de Literatura em Língua Portuguesa em 2017, e está traduzido e publicado na Bulgária. Representou Portugal na 17ª edição do Festival do Primeiro Romance, em Budapeste. As aves não têm céu é o seu segundo romance. Formado pela Universidade de Coimbra, é autor, psicólogo clínico e promotor cultural.

Texto: Porto Editora

Fotografías: Cedidas polo autor

 

- Comecemos cunha idea potente. ¿Qué significa para vostede a literatura?

 

A literatura é um diálogo entre diferentes sujeitos, povos, latitudes e tempos. Nela participamos todos, não só os autores, os leitores e os investigadores, mas todos. Estamos todos na literatura. O autor dialoga consigo mesmo, com outros autores, com outros tempos, com o leitor. O leitor dialoga com o autor, consigo mesmo, etc. A literatura deve favorecer a liberdade e perseguir o silêncio e a intimidade (não a vida privada).

 

- Cómo definiría o seu proceso creativo?

 

Eu estou constantemente a criar. Consigo com facilidade criar no caos, entre outras tarefas. Sou muito observador e criativo, portanto o meu proceso criativo nunca é interrompido. Nem a dormir. Depois, em determinados momentos preciso criar condições para o ofício e nesses momentos escrevo o que venho criando. Uma particularidade sobre o meu proceso criativo é que sou muito cuidadoso com a criação das personagens. Como numa partida de jenga, primeiro construo a torre recorrendo a todas as peças. Depois vou tirando uma a uma até ao ponto em que se tiro mais uma a torre cai.

 

- Como nace Fredo (Gradiva, 2016)?

 

O meu primeiro romance Fredo aconteceu numa fase da mina vida em que terminei um ciclo. Após terminar o curso universitário encontrei demasiados obstáculos à entrada no mercado de trabalho. Esse vazio conduziu-me ao desafio de experimentar a prosa. Eu já sabia que conseguia competir nos cem metros, mas desconhecia as minhas capacidades para a maratona. Durante dois anos e meio deambulei à procura de oportunidades e trabalho. Vivi na Irlanda um período e foi aí, na solidão, que comecei a levar mais a sério o libro. A personagem Fredo, refugiado da segunda guerra mundial, criei-a depois de ler um artigo no jornal que falava de dois diplomatas portugueses que ajudaram a salvar dezenas de pessoas pasando-lhes vistos de entrada em Portugal na fase final da guerra. Teixeira Branquinho e Sampayo Garrido fizeram-no em Budapeste. Em Portugal, Aristides de Sousa Mendes é muito reconhecido por ter salvado milhares de pessoas através da embaixada de Bordéus, porém estes dois são praticamente desconhecidos. Quando conheci a história deles decidi imediatamente que o meu libro teria uma das pessoas que eles ajudaram a salvar. 

 

 

- O Júri do Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís sinalou que este «É um romance de aprendizagem da experiência da relação com os outros.». Ideal para esta época que vivimos…

 

Infelizmente, julgo que é um tema transversal a todos os tempos. Sou optimista mas acredito que no futuro continuará a ser pertinente reflectir sobre isto. Os libros do futuro, como os do pasado, continuarão a falar de poder, racismo, muros, amor, morte, relações humanas. Talvez a arte não sirva para mais nada senão para isto. 

 

- Esta obra xa está traducida ó búlgaro. Sábese se a poderemos ler pronto noutras linguas?

 

Alguns excertos da obra estão também traduzidos para inglês e húngaro. Neste momento não tenho conhecimento se o libro será publicado noutros países mas desejo que venha a ser possível. 

 

- Cal é o xerme da súa obra máis recente As aves não têm céu (Porto Editora, 2020)?

 

O meu último romance As aves não têm céu trata, sobretudo, de muros, limites e fronteiras. É muito súbtil e volátil a linha que separa a doença mental da sanidade, a imaginação do delirio, a culpa da memoria, do meu e do teu. Vivemos tempos em que as noções de liberdade são alteradas diariamente. No romance, todas as personagens são colocadas em situações em que a sua liberdade é limitada de varias formas. Interessouu-me explorar isso. Também é um romance que expõe a pluralidade da realidade e a sua impossibilidade, e também a forma como a memoria influencia as nossas acções e nos fragmenta. 

 

 

 

 

- Coñece Galicia e a literatura do noso país? 

 

Confesso que conheço mal a literatura galega. Mas tenho memorias muito boas da Galiza. No final do meu curso universitário, um pouco antes de começar a escrever o libro Fredo, fiz o camino de Santiago. Recordo-me de visitar a campa do escritor Camilo de José Cela. É o autor que melhor conheço relacionado com a Galiza. Conheço também o Carlos Quiroga, ainda há pouco estivemos juntos no festival literário Correntes D’Escritas na Póvoa de Varzim.

Quanto à literatura española, Javier Marías é um dos meus escritores preferidos e uma enorme influencia. Nas Correntes D’Escritas conheci pessoalmente a Rosa Montero e o Antonio Colinas, e gosto muito de ambos. Na juventude marcou-me muito um libro de Ignacio Martínez de Písón, Estradas secundárias. Especiais para mim são também Lorca e Manuel Vilas.

 

- Podería recomendarnos algúns libros para esta época de inestabilidade?

 

Recomendo Na Floresta de Edna O’Brian, Arde o musgo cinzento, de Thor Vilhjalmsson, e Nemesis de Philip Roth.  

 

- Para rematar.Ten algún proxecto en marcha ou finalizado do que poida adiantar algo?

 

Durante a quarentena participei num folhetim literário chamado Bode Inspiratório que juntou 46 escritores de língua portuguesa e 46 artistas plásticos. Escrevi e interpretei uma peça de teatro telefónico para o Teatro Viriato, entre outras coisas. Tenho varios projectos em marcha e a seu tempo, aqueles que merecerem leitores, virão a público. 

 

 

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Nombrar es reconocer que existe,

gracias y a pesar de mí.

Cuando tras mi frente genero una sílaba, 

defino, 

coloreo y cincelo, 

tal como suena tras el abdomen. 

Junto los labios para tallarlo, llenando la entrada. 

Ahogar su grito, ese dolor tras las costillas.

 

Mencionar es la primera maniobra. 

Para ello, cubriré todas las articulaciones. 

Los otros asentirán abriendo las comisuras. 

Flotará el polvo, semilla hundida. 

Maria González, en El hambre (Maclein y Parker, 2020)  (Fragmento)

David González Domínguez

Contacto : palabradegatsby@gmail.com